Capítulo 1
O sol finalmente escondeu-se no Oeste. Há muito tempo, o céu brilhava em tons de rosa, escurecendo gradualmente, para finalmente tornar-se um roxo forte e frio. Embora a luz do dia estivesse a desaparecer e ainda houvesse algum tempo até a noite, as grossas nuvens davam a impress?o de que era mais tarde do que realmente. Para a maioria das pessoas e animais isto significou preparaç?es para dormir e um merecido descanso.
Para a maioria.
Os poucos - tanto as pessoas como os animais selvagens - estavam apenas começando a sua caça.
Nuvens poderosas e densas cobriam uma parte enorme do céu, e em algum lugar a distância podia-se ouvir o murmúrio baixo de uma tempestade que se aproximava incessantemente. Acompanhava o rosnar da tosse de um velho e desgastado cami?o Ford, conduzido sem pressa, pela beira da estrada, goivando em passeios profundos no cascalho. A fraca luz amarela proveniente dos faróis inundou a paisagem mais próxima.
Boston começou a despovoar. As ruas e becos esvaziavam-se, tornando-se um refúgio para homens e mulheres perdidos que corriam para casa ou para seus trabalhos, muitas vezes ilegais. Os automóveis eram uma raridade; um velho cami?o que ainda lembrava os dias da Grande Guerra, era uma das duas máquinas do bairro. O outro era um modelo clássico T que deslizou na direç?o oposta em baixa velocidade. Ao passar, as poças gentilmente chapinharam a água.
Sentado ao volante do cami?o, um homem batia nervosamente com os dedos no aro e inalava fortemente num cigarro feito em casa. No crepúsculo da noite, era difícil dizer como era a sua apar?ncia. Tinha certamente um rosto queimado pelo sol, coberto por uma barba cinzenta e um chapéu velho e esgarçado, escorregado baixo na testa. Uma camisola grossa era puxada até ao queixo, protegendo o seu usuário do frio.
Ao seu lado, no meio do sofá, sentou-se um homem nos óculos muito mais jovem e mais magro, com um bigode, fino destinado a assemelhar-se a Chaplin, e o seu cabelo penteado para trás. Ele estava nervosamente encolhendo seu boné nas m?os, n?o querendo ceder ao estresse e a tens?o. Embora a luz fosse t?o baixa, era perfeitamente visível que ele estava aqui porque tinha de estar e ele n?o se sentia muito confiante. O seu oposto total era o terceiro homem.
Ele, dormindo junto a janela lateral, com o chapéu puxado para baixo sobre o rosto, era um cavalheiro de constituiç?o robusta, com um uniforme de trabalho, com as m?os como fatias de p?o, sujas de lubrificante. As bochechas dele estavam cobertas com a sombra de uma barba. O cabelo dele era curto e escuro, pelo menos era assim que os fios soltos que saíam debaixo do boné dele pareciam. Ele cheirava a suor, peixe e lubrificante, e acima de tudo roncava.
As primeiras gotas de chuva de primavera caíram no para-brisas do cami?o.
Os poucos moradores de Boston, sentindo a água fria no rosto, aceleraram seus passos, evitando também os salpicos de água das poças. Para os tr?s no veículo, a chuva foi um sinal particularmente mau. O condutor chochou, mastigou o cigarro e pressionou o acelerador. O automóvel tossiu uma, duas vezes, e começou a acelerar.
- Foda, n?o vamos chegar a tempo antes da tempestade. O solo vai ficar molhado!
- Será mais fácil cavar - murmurou o homem adormecido, sujo de lubrificante. Ele moveu-se e estirou-se. Ou ele tinha um sono leve ou os sons da tempestade que se aproximava o despertaram. O jovem estava em sil?ncio, inseguro se queria participar nesta conversa. Eventualmente, ele tirou os óculos do nariz para esfregar os olhos e ganhar tempo.
- Rabo, n?o é mais fácil - resmungou o motorista. - Já cavou em solo molhado? Lama até aos tornozelos no primeiro, e depois ainda pior!
- Eu cavei e cavei mais de uma vez porque me disseram para faz?-lo. N?o acredito que aquele irland?s ainda esteja a comandar o porto...
- O qu?, o Reilly encomendou? Por Deus, sinto muito.
- De qualquer forma, temos o jovem para fazer o trabalho sujo, tu mesmo o encontraste, Steve.
- Eu? Eu o qu?? - o homem interferiu, rapidamente colocando os seus óculos. Ele olhou para os seus colegas mais velhos com um ligeiro receio, percebendo que o pior e mais difícil trabalho iria cair sobre ele.
- Tu, eu e Adrien - disse o condutor, ignorando o jovem. - Cavar na lama será um pesadelo, mas n?o o fazemos de graça. Partilhamos igualmente, um terço.
- Bem, por tanto dinheiro tu poderias viver como um rei. Já n?o é como era antes, muito trabalho e poucos dólares. Jovem, v? quem morreu recentemente, talvez haja um recém enterrado. - O trabalhador sujo, Adrien, alcançou debaixo do banco e arrancou um jornal um pouco amassado e rasgado. O homem de óculos grunhiu algo para si mesmo, corrigiu os seus óculos e folheou o "Boston Courrier", procurando os últimos necrológios.
No crepúsculo - ou melhor, a escurid?o, porque quanto mais longe do centro de Boston, menos lâmpadas havia - n?o era propícia a leitura das letras minúsculas. O mais novo dos tr?s piscou os olhos e levantou o papel perto do rosto. Ele passou uns bons minutos fazendo isso, durante os quais o cami?o diminuiu a velocidade e parou a beira da estrada com álamos e bétulas. Quando que o motor morreu, os murmúrios malévolos da tempestade ficaram mais altos. A chuva também começou a cair cada vez mais densa.
- Hum... Jessup Clayton Ostig, 65 anos, e SamanthaThereseErwin, 42 anos - o jovem finalmente falou, tirando a cara do jornal. - Apenas aqueles dois foram recentemente enterrados na Evergreen, Sr. Collins - acrescentou ele apressadamente, explicando-se desnecessariamente ao trabalhador.
- E provavelmente meia dúzia de outros, sem nome, sem-abrigo, sem esperança. É com eles nós referimos no primeiro lugar, garoto - completou o Steve, motorista, mastigando o cigarro e olhando pelas janelas do carro estacionado. Satisfeito com o vazio e o sil?ncio, ele sorriu.
- Mas o professor paga mais pelos frescos! - exclamou, agora bem acordado, o Adrien, arranjando o chapéu e estendendo a m?o para a maçaneta. Ele tinha sido o primeiro a sair do cami?o e foi imediatamente para as traseiras, de onde tirou um grande saco de juta e atirou-o as costas com facilidade. O metal e as ferramentas de madeira agitaram.
- Paga, mas temos de ter cuidado - continuou o motorista, batendo a porta atrás dele. - Ninguém sentirá falta do sem-abrigo, a alma voltou para Deus, mas o corpo ficou connosco, lembre-se destas palavras, Bob. - Ele corrigiu o chapéu, olhando para o céu escuro e as nuvens, e depois cuspiu abundantemente no ch?o. Pequenas poças brilharam na luz fraca, a sua superfície vibrou com mais gotas de chuva.
O jovem de óculos foi o último a deixar o automóvel. Relutante, como se estivesse com medo. Ele soprou em suas m?os, querendo aquec?-las antes do trabalho, e alcançou dentro do cami?o para pegar uma pá, um pé-de-cabra e uma picareta. Ele gemeu, tentando segurar tudo em seus braços, mas depois de dar alguns passos, as ferramentas caíram no ch?o molhado com um barulho alto.
- Putz! - ele amaldiçoou com uma voz tr?mula. Ele dobrou-se para recolher o equipamento quando uma luz suave, mas vibrante, inundou a área imediata. O homem de óculos olhou apreensivamente para o rosto do motorista que levantou a lâmpada da tempestade bem alto. Ele apenas abanou a cabeça, a olhar a volta. Estava vazio e silencioso. O cemitério estava rodeado por um muro n?o particularmente alto de tijolos e pedras finas, coberto de hera e ervas daninhas; tudo foi coroado por um enorme port?o de ferro forjado.
Contudo, n?o havia ornamentos, anjos, cruzes ou santos - a raz?o n?o era que as pessoas aqui enterradas n?o eram de qualquer fé ou credo, mas que eram pessoas principalmente sem parentes e que se encontravam nos degraus inferiores da escada social. Claro que havia os das classes superiores, mas eram raros. O Adrien ficou em frente ao port?o por um tempo, pensando se ele seria capaz de quebrar a corrente e o cadeado.
No entanto, ele cuspiu por cima do ombro e se moveu ao longo do muro, indo para uma pequena colina. A parede de tijolos era ligeiramente mais baixa ali, mas era preciso ter cuidado com as raízes, pedras soltas e lama. A chuva ainda estava muito fraca, mas era preciso ter em mente que isso poderia mudar rapidamente. Os tr?s ladr?es tinham de chegar ao cemitério o mais rápido possível.
Subir o declive n?o foi fácil, mas também n?o foi um obstáculo; o mais difícil foi a bagagem. Chegar a parede, acompanhado de maldiç?o, arfada e cuspo, demorou talvez um pouco mais de um quarto de hora. Demorou mais um quarto de hora para ultrapassar o muro e carregar todo o equipamento.
- Estou ficando demasiado velho para isso - gemeu o motorista, de joelhos, quando era o último dos tr?s a entrar no cemitério. A parte mais antiga da necrópole tinha mais túmulos e capelas funerárias privadas, datados do século XIX. Embora a maioria deles estivesse num estado deplorável - paredes rachadas, degraus desmoronados, esculturas danificadas, inscriç?es gastas, aros enferrujados, etc. - era impossível n?o ter a impress?o de que se estava a lidar com a história.
O Steve foi o primeiro, e de longe o mais crente de todos, a fazer o sinal da cruz e fazer uma breve oraç?o. Os outros relutantemente repetiram os seus gestos e recolheram os seus equipamentos, indo mais adiante no caminho para a seç?o mais nova, onde os pobres e esquecidos foram enterrados. Depois de caminhar alguns metros, os ladr?es sentiam-se mais seguros; ninguém os conseguia ver da estrada. O guarda do cemitério estava provavelmente sentado na sua cantina a beber a saúde de Volstead, apenas a olhar para as nuvens de tempestade.
Para os criminosos, o tempo era perfeito.
Estava escuro, um verdadeiro aguaceiro estava prestes a começar, e os extensos bordos, abetos e píceas, abafavam o brilho da lâmpada da tempestade. As agulhas dessas árvores, deitadas no ch?o numa camada bastante espessa, juntamente com sucessivas gotas de chuva silenciaram os passos dos homens. Quando trovejou, era óbvio que ninguém os podia ouvir ou ver.
A maioria dos becos n?o eram estreitos, mas também n?o podiam ser chamados de largos. Apenas o suficiente para caber um carro puxado por cavalos para transportar um caix?o ou caix?es. Bastava chegar a viela principal e seguir as trilhas e marcas de cascos para chegar ao destino, mas a lama impiedosamente grudou nos sapatos e dificultou a marcha.
- Bem, garoto, ao trabalho - disse o Adrien silenciosamente, jogando a bolsa com ferramentas no ch?o molhado, evitando as primeiras poças que se estavam a formar. Um momento depois ele tirou alguns dos equipamentos do homem de óculos e, olhando ao redor da fila de sepulturas, enfiou a pá no ch?o.
- N?o aqui, pelo amor de Deus - o Steve o corrigiu, tirando o chapéu e limpando sua testa suada. - Ele morreu antes do Natal, os insetos já o est?o a comer. Desta vez o professor n?o nos vai pagar pelo cadáver comido. Ali nós cavamos, primeiro a menina, depois o homem. - Ele apontou primeiro para uma placa simples com a data aproximada da morte, e depois para um monte de terra no outro cabo do beco.
- Como é que o conheces? Aquele professor? - o Adrien murmurou algo para o seu mesmo e um momento depois todos trabalhavam rápida e eficientemente, como se escavar caix?es e roubar corpos fosse para eles talvez n?o uma ocorr?ncia diária, mas algo, que horror, comum.
- Lembras-te do inverno quando trabalhamos para Shaun? - o Steve perguntou, atirando a terra rapidamente. - Sabes, aquele da LibbyMurray?
- Bem, Libby, lembro-me. A minha virilha ainda arde.
- Shaun mencionou algumas vezes que uma mudança estava chegando, que isto, aquilo, que o próprio Deus desceria por pessoas como nós e tudo isso, o dinheiro fluiria como Charles, e ent?o ele me marcou uma reuni?o e foi isso. De alguma forma funcionou - concluiu, enfiando a pá e limpando o suor da sua testa.
- De alguma forma - repetiu o Collins, n?o parando o seu trabalho. Parecia razoável, era assim como as coisas eram feitas no ramo do crime. Através de ligaç?es. Através de refer?ncias. Através dos rumores. O homem de óculos permaneceu em sil?ncio, ouvindo a conversa, seu rosto ficou cada vez mais pálido. N?o era assim que ele imaginava um trabalho ilegal.
Quase meia hora depois, as pás atingiram as tábuas de pinho baratas. Todos os tr?s, suados e cansados, fizeram uma pausa; estavam correndo um risco, mas conseguiram fazer o trabalho de forma bastante eficiente e rápida. Eles levantaram o rosto para o céu, deixando a chuva fria limpar a pele de suor e partículas de solo. O Adrien meteu a m?o no saco e tirou uma garrafa de leite cheia de líquido âmbar.
- Força, eu conheço um negro que vende moonshine, podes confiar nele. - Para confirmar estas palavras, ele inclinou a garrafa e bebeu um grande gole. Ele passou a garrafa com cuidado. O jovem aceitou a bebida com relutância, engoliu um pouco, coaxando e tagarelando. O álcool era muito forte, amargo, oleoso, com um estranho travo metálico, mas serviu ao seu propósito. Os outros dois riram alto ao ver o rapazinho engasgado.
- Muito bem, já chega, vamos tirar a menina morta e continuar com o azarado, enquanto ainda é suportável - concluiu o motorista, limpando a boca quando era a sua vez. Ele foi o primeiro a levantar-se e pular, com um pé-de-cabra em uma m?o e um martelo na outra. Ele cruzou-se mais uma vez, tirou um rosário do bolso e passou o dedo por cima das contas. Depois ele guardou-o e deslizou habilmente a haste de metal achatada entre as tábuas.
Ele bateu uma e outra vez com o martelo na ponta direita. A prancha da madeira estalou. Depois, os pregos arrancados a força chocalharam, a tampa ruiu e alguma terra e lama caiu das paredes, a medida que a chuva ia ficando mais forte - o curto intervalo provou ter consequ?ncias desastrosas.
O jovem lutava com a madeira do outro lado, olhando de vez em quando para o seu amigo experiente. O último dos tr?s, por outro lado, ficou de vigia, com uma lâmpada na m?o, iluminando o buraco no ch?o para os seus companheiros. Com a vis?o acostumada as trevas e n?o atacada pela luz brilhante, ele poderia facilmente avistar o vigia ou outros "empreendedores" semelhantes. Ele sabia disso. Ele nem sequer prestou atenç?o ao fato de que o crepitar da madeira e o esmagamento do deslizamento de terra rapidamente pararam.
O barulho da chuva caindo e o murmúrio ocasional da tempestade proporcionaram um pano de fundo adequadamente sombrio a cena; pode-se pensar que tudo isso foi retirado da imaginaç?o doentia de algum cineasta. E isto n?o estava longe da verdade.
- Santa Maria e José... - sussurrou o Steve, chamando assim a atenç?o do Adrien. O jovem, ofegante, olhou para o caix?o aberto, sem acreditar nos seus olhos. Dentro, sem contar, claro, a areia e a lama, havia um corpo; jovem, ainda n?o mordido pelo dente do tempo, embora um pouco azul e com as bochechas afundadas. O trabalhador, preocupado com o comportamento dos seus companheiros, virou-se para a sepultura e inclinou-se, brilhando a lâmpada. A caixa feita de tábuas de pinho tortas n?o parecia alarmante a primeira vista.
O problema era que uma mulher grávida apareceu aos homens.
- O que é isso? - rosnou o Adrien para o motorista, descendo. Ele n?o se importou com a lama e as pedras; violentamente empurrou o jovem chocado para longe e agachou-se, arrancando algumas tábuas restantes. Ele viu que o túmulo continha um caix?o com o corpo de uma jovem grávida dentro. O trabalhador amaldiçoou sob o seu fôlego, cuspiu sobre o seu ombro e começou a murmurar algo inarticulado novamente.
Como operário que trabalhava no porto do dia até a noite, ele tinha um caráter forte e nervos de aço, mas até mesmo ele ficou perturbado com a vis?o de uma mulher grávida deitada em sua cova. N?o foi a primeira e, provavelmente, n?o a última vez que ele se retirou e vendeu cadáveres, mas foi a primeira vez que ele se encontrou com um caso desses - ele roubou cadáveres de m?es, filhas, mas nunca olhou para o rosto calmo de uma mulher em gravidez avançada.
A sua barriga inchada escondia o corpo de uma criança pronta para vir ao mundo.
A vida do pequeno terminou antes de começar de vez.
Foi uma verdadeira tragédia e provavelmente a causa direta do súbito colapso do Bob. O Adrien olhou fugazmente ao homem pálido, que começou a rastejar para fora do poço em pânico, sujando-se com lama e agarrando desesperadamente o ch?o com as m?os. Outro estrondo de trov?es, e relâmpagos cortam o céu, iluminando o cemitério por uma batida de coraç?o com um branco fantasmagórico.
- Deus! - gritou o jovem, ajoelhando-se e vomitando o péssimo conteúdo do seu estômago, onde o álcool dominava. Ele se virou de costas, começou a tossir e a tremer por todo o corpo. Esta foi a sua primeira vez; ele precisava muito de dinheiro, e n?o havia muitas opç?es para ganhá-lo.
Ele jogou os óculos fora e apertou bem as pálpebras, deixando que a chuva fria o deixasse sóbrio e o acalmasse um pouco. Ele lutou para n?o estourar o seu choro.
- Onde o arranjaste? - perguntou o Collins irritado.
- Pensei que ele era adequado - disse o motorista, mas n?o resultou muito bem para ele. - N?o estou ficando mais jovem, n?o vou durar muito e alguém tem de tomar o meu lugar, tu sabes que a competiç?o n?o dorme. - Ele cuspiu novamente e começou a mover as tábuas e o ch?o para que pudesse chegar ao corpo. Ele tomou a mulher debaixo dos braços dela, com cuidado e quase com ternura, e depois começou a levantá-la do caix?o.
O operário n?o hesitou, e apenas um momento depois agarrou as pernas da falecida, desmaiando o seu companheiro enquanto subia o muro molhado da terra, rastejando para fora do poço e arrastando o corpo atrás dele. Ninguém perdeu tempo, eles também começaram imediatamente a trabalhar e começaram a preencher o buraco.
- Ei, miúdo! Mexa a sua bunda e vem cá!
- Jesus, dá-lhe um minuto - gritou o Steve furiosamente, encostado a pá.
- Eu n?o dou a mínima, n?o vou fazer todo o trabalho sozinho! - respondeu o trabalhador num tom igualmente agressivo, atirando outro lote de terra para uma cova recém cavada.
O homem de óculos ficou parado por alguns momentos assustadoramente longos. Só depois é que ele se ajoelhou e pegou nos seus óculos. Ainda de joelhos, ele fez o sinal da cruz com sua m?o tr?mula e olhou para os assaltantes.
- Eu... eu acho que n?o consigo... eu n?o pensei... Deus, o fedor e... - Ele repetiu com uma voz fraca, e as lágrimas misturaram-se com a chuva a correr-lhe pela cara. Ele levantou a cabeça e lançou um olhar apologético até que finalmente conseguiu ver o rosto da mulher morta. Isto foi demasiado para ele, levantou-se e com velocidade crescente, escorregando na lama, começou a ir embora.
- Ei, miúdo, volta aqui! - gritou o motorista, sentindo o pior.
- Foda-se, a quem levaste! - gritou o Adrien, jogando fora a pá e perseguindo o homem de óculos. Roubar sepulturas de corpos n?o foi uma coisa fácil ou agradável, mas tal pânico provavelmente ninguém esperava. Rapidamente, apanhou o homem, bateu-lhe uma vez na cara com a palma da m?o aberta e estava prestes a dar-lhe outra bofetada quando o jovem levantou as m?os num gesto de rendiç?o sem esperança. O Adrien congelou, com a m?o pronta para atacar.
- Por favor!
- Por favor, o qu??!
- Eu... Eu n?o posso, em sério! Sr. Collins, por favor!
- Por tua causa, estúpido filho da puta, estamos a perder tempo e a arriscar tudo!
- Desculpe!
- E eu estou-me nas tintas das tuas desculpas! Ou pegas a pá e trabalhas connosco, ou vais para a carroça e esperas por nós, e se fugires para algum lugar, lembra-te que eu vou encontrar-te e sei onde est?o os caix?es vazios - ele uivou, sacudindo o jovem homem de óculos para finalmente deixá-lo ir. O jovem vacilou e caiu na lama, onde ficou por um momento paralisado de medo.
Finalmente, ele acenou com a cabeça e lentamente voltou para a cova cavada. O Adrien, irritado e cansado, voltou para seu amigo e eles terminaram o trabalho num - nomenomen - humor da morte. Uns minutos depois estava tudo acabado. Se n?o fosse a terra pisada por todas aa partes e as inúmeras pegadas impressas na areia molhada e na lama, ninguém provavelmente teria suspeitado que uma sepultura tivesse sido desenterrada.
Os ladr?es se afastaram do local azarado e, suspirando muito, começaram a trabalhar novamente.
- Tem de ser um homem e uma mulher? Eles n?o podem ser os quaisquer corpos? Nós já estamos ferrados de qualquer maneira - o Adrien jogou a pá em sil?ncio.
- Ele está nos pagando por um homem e uma mulher falecidos recentemente - disse o motorista, jogando fora outra pá de terra. Ele também olhou sub-repticiamente para o homem de óculos nervoso a beira de um colapso. A ameaça feita pelo alto trabalhador n?o foi sem mérito, pois o roubo de sepulturas n?o era a única ocupaç?o do Adrien. O Steve sabia disto, mas o rapazinho só conseguia adivinhar.
Finalmente, a pá bateu nas tábuas de outro caix?o.
Um, dois... Tr?s.
E outro. A madeira da tampa gemeu sob a press?o dos golpes de metal e finalmente se soltou, caindo para dentro - n?o havia tempo para brincar com o pé-de-cabra, a simples força bruta foi usada. Os ladr?es reagiram imediatamente, sabendo o que isso poderia fazer com eles e com o corpo. O Adrien até saltou, porque se n?o o fizesse, a pá poderia atingir o corpo e danificá-lo, e ninguém queria isso. O professor n?o estava a pagar por bens danificados, estava a pagar por bens frescos. Bom, inteiro, adequado para investigaç?o científica ou o que quer que ele estivesse a fazer.
O trabalhador atirou as suas costas contra a parede lamacenta do poço. Terra molhada e lama salpicou por todos os lados e isso só ajudou o jovem a ficar sóbrio e se acalmar. Ele ofegava muito e o seu coraç?o batia no peito como uma das máquinas da fábrica. O homem de óculos começou imediatamente a rastejar para fora do poço, sem sequer se preocupar em olhar para o corpo.
- Preciso de uma bebida - disse o Adrien, olhando de olhos arregalados para o caix?o e as tábuas esmagadas.
- Falas sabiamente - confirmou o motorista, limpando a sua testa molhada. - Jovem, faz-te útil e dá-me uma garrafa - ele atirou mais alto para o homem de óculos. A chuva estava a descer em ondas agora. N?o aumentou ou diminuiu a sua força, foi, no máximo, inconveniente.
Chegaram ao caix?o e fizeram uma pequena pausa. O álcool ajudava em tais situaç?es - reprimiu medos e ansiedade, anestesiou e cobriu o corpo e a alma com uma agradável pena de indiferença. Cavar e transportar o corpo também podia ser feito em dois, embora isto fosse um pouco mais difícil. N?o podiam contar com a ajuda do mais novo deles; se ele tocasse o corpo, provavelmente desmaiaria.
Passado pouco tempo - n?o iam arriscar mais do que foi necessário - voltaram ao seu trabalho interrompido. Eles tiraram o resto das tábuas do caix?o, olharam para o corpo de um homem adulto e maduro com patilhas, e trocaram olhares significativos.
Isto era alguém por quem, em boa consci?ncia, iriam receber um monte de dinheiro.
- Um bastardo pesado, e ele n?o parecia! - gemeu o Adrien, colocando o cadáver sobre um grande pedaço de lona, sem dúvida roubada do porto. O Steve, com a habilidade de um coveiro experiente, envolveu o corpo e colocou o rosário na cabeça do falecido por um momento, depois ele se endireitou e pressionou as m?os para as costas. Era tarde, a chuva estava caindo constantemente, mas pelo menos a tempestade tinha passado de lado. Os trov?es e relâmpagos distantes eram otimistas.
Essa foi a única coisa positiva naquela noite amaldiçoada.
- Voltamos? - perguntou o homem de óculos silenciosamente.
- Voltamos, e se disseres alguma coisa a alguém, tu mesmo acabarias naquela cova - rosnou o trabalhador, enchendo a cova rapida e descuidadamente. Quando a pilha de terra tomou mais ou menos a forma certa, ele gaseou e alcançou os corpos. O cadáver de um homem, gordo e vestido elegantemente, ele jogou por cima do ombro com grande habilidade que lhe deu arrepios.
O cadáver da mulher grávida caiu para os outros dois. O motorista cuspiu em suas m?os e levantou o corpo embrulhado em lona, esperando que o jovem garoto fizesse o mesmo. Ele grunhiu, de pé na chuva torrencial, e o homem de óculos levou apenas um momento para apanhar a mulher morta. Com o desgosto pintado no seu rosto pálido, começou a rastejar em direç?o a parede.